Zelensky admite ceder território à Rússia: o que entrega do Donbas a Putin significaria para a Ucrânia
No domingo (17/8), Zelensky admitiu pela primeira vez que parte do território ucraniano ocupado pode ser usado como moeda de troca para um eventual acordo de paz
- Categoria: Geral
- Publicação: 17/08/2025 23:12
Dias antes de se encontrar com Vladimir Putin no Alasca, Donald Trump se referiu ao que chamou de "trocas de terras" como condição para a paz.
Para os ucranianos, foi uma expressão confusa. Que terras seriam trocadas?
A Ucrânia receberia parte da Rússia em troca do território que a Rússia tomou à força?
Enquanto Volodymyr Zelensky se prepara para viajar a Washington na segunda-feira para se reunir com Trump, provavelmente não há nenhum elemento de "troca" no pensamento do presidente americano.
Em vez disso, ele estaria planejando pressionar Zelensky a entregar totalmente as regiões orientais ucranianas de Donetsk e Luhansk em troca de a Rússia congelar o restante da linha de frente – uma proposta apresentada por Putin no Alasca.
No domingo (17/8), Zelensky admitiu pela primeira vez que parte do território ucraniano ocupado pode ser usado como moeda de troca para um eventual acordo de paz.
"Precisamos de negociações reais, o que significa que podemos começar por onde está a linha de frente agora", declarou o presidente ucraniano, após encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em Bruxelas.
Luhansk já está quase totalmente sob controle russo. Mas estima-se que a Ucrânia tenha mantido cerca de 30% de Donetsk, incluindo várias cidades e fortificações-chave, ao custo de dezenas de milhares de vidas ucranianas.
Ambas as regiões – conhecidas conjuntamente como Donbas – são ricas em minerais e indústrias.
Entregá-las agora à Rússia seria uma "tragédia", diz o historiador ucraniano Yaroslav Hrytsak.
Pelo menos 1,5 milhão de ucranianos fugiram do Donbas desde que a agressão russa começou em 2014.
Borylo disse que estava acompanhando as notícias do Alasca.
Até este domingo, Zelensky afirmava repetidamente que a Ucrânia não entregaria o Donbas em troca de paz.
E a confiança de que a Rússia cumpriria um acordo de paz em troca do território – em vez de simplesmente usar a área anexada para futuros ataques – é baixa.
Por esse e outros motivos, cerca de 75% dos ucranianos rejeitam qualquer cessão formal de terras à Rússia, segundo pesquisas do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev.
"Você pergunta sobre a rendição da região de Donetsk, bem, eu meço esta guerra não em quilômetros, mas em vidas humanas", diz Yevhen Tkachov, 56, trabalhador de resgate emergencial em Kramatorsk.
"Não estou disposto a trocar dezenas de milhares de vidas por alguns milhares de quilômetros quadrados", afirma.
Para alguns, no fim, tudo se resume a isso: terra versus vida. Isso deixa o presidente Zelensky "em uma encruzilhada sem boas opções à frente", diz Volodymyr Ariev, deputado ucraniano do partido oposicionista Solidariedade Europeia.
E, ainda assim, não está claro na Ucrânia por qual mecanismo um acordo desses poderia sequer ser alcançado.
Mais provável seria uma rendição de fato do controle, sem reconhecimento oficial da área como russa.
"Não há entendimento real de como deveria ser o procedimento", afirma ela.
"O presidente simplesmente assina o acordo?
As coisas podem ficar mais claras depois que Zelensky se encontrar com Trump em Washington na segunda-feira (18/8) – a primeira visita do líder ucraniano à Casa Branca desde um desastroso confronto no Salão Oval em fevereiro.
Em meio ao descontentamento deixado pela cúpula do Alasca, surgiu uma possível boa notícia para a Ucrânia.
Trump pareceu reverter sua posição sobre garantias de segurança após a cúpula, sugerindo que estaria disposto a se juntar à Europa para oferecer proteção militar à Ucrânia contra futuros ataques russos.
Para Yevhen Tkachov, o trabalhador de resgate em Kramatorsk, a troca de território só pode ser considerada com "garantias reais, não apenas promessas escritas".
"Somente então, mais ou menos, eu sou a favor de entregar o Donbas à Rússia", diz.
Enquanto vários caminhos para a paz são sugeridos e discutidos, às vezes no estilo de negociação preferido por Trump, há o risco de se perder de vista as pessoas reais envolvidas – pessoas que já viveram uma década de guerra e que agora podem perder ainda mais em troca da paz.
O Donbas era um lugar cheio de ucranianos de todas as origens, diz o historiador Vitalii Dribnytsia.
Donetsk pode não ter a reputação cultural de um lugar como Odessa, diz Dribnytsia.
Leia Mais