Agronegócio americano: 'Muitos vão quebrar' Tarifas de Trump atingem
Por que muitos produtores agrícolas do cinturão do milho nos Estados Unidos sentem o aumento da pressão financeira causado, em parte, pelas novas tarifas de importação, mas mantêm firme seu apoio a Donald Trump?
- Categoria: Geral
- Publicação: 20/09/2025 15:13
Em um dia escaldante no meio-oeste americano, Tim Maxwell expressava seus medos sobre o futuro da produção agropecuária no país.
Ele tem 65 anos e trabalha no campo desde a adolescência.
Agora, Maxwell tem uma fazenda de produção de grãos e criação de porcos perto da cidade de Moscow, no Estado americano de Iowa. Mas ele tem dúvidas sobre suas perspectivas de futuro.
Os produtores agrícolas americanos estão enfrentando uma série de dificuldades neste ano - (crédito: Bloomberg via Getty Images
Estou um pouco preocupado", afirmou Maxwell, que usava um boné com o logotipo de uma empresa de produção de milho.
Sua preocupação é que os fazendeiros americanos não consigam vender sua produção para o mercado internacional, como fizeram nos últimos anos. Parte do receio vem da reação mundial às tarifas de importação do presidente Donald Trump.
"Nossa produção, nossa safra e o clima estão bons, mas o [interesse dos] nossos mercados, agora, está em baixa", disse ele. "Isso irá causar tensão entre alguns produtores."
Bloomberg via Getty Images Os produtores agrícolas americanos estão enfrentando uma série de dificuldades neste ano
Maxwell não é o único a temer. Grupos de produtores agrícolas dos Estados Unidos alertam que os agricultores americanos enfrentam dificuldades generalizadas neste ano, principalmente devido às tensões econômicas com a China.
Desde abril, os dois países travam uma guerra comercial, que causa grave queda das importações chinesas de produtos agrícolas americanos.
O resultado é que os fazendeiros dos Estados Unidos estão sendo prejudicados, segundo os economistas.
O número de pedidos de falência por parte dos produtores agrícolas atingiu o nível mais alto dos últimos cinco anos, segundo dados compilados em julho pela agência Bloomberg.
Com todas essas dificuldades econômicas, as áreas rurais poderiam muito bem ter se voltado contra Trump.
Mas não é o que parece estar acontecendo.
Os americanos que vivem na zona rural do país foram um dos grupos de eleitores mais leais ao presidente nas eleições do ano passado.
Trump venceu Kamala Harris neste grupo por mais de 40 pontos percentuais, superando suas próprias margens em 2020 e 2016, segundo análise do centro de pesquisa e debates Pew Research Center.
Especialistas em pesquisas afirmam que Trump ainda é muito popular no interior do país.
BBC 'Estou meio preocupado', afirma Tim Maxwell, dono de uma fazenda de produção de grãos e criação de porcos perto de Moscow, no Estado americano de Iowa
Maxwell afirma que continua apoiando Trump, mesmo com suas preocupações financeiras.
"Nosso presidente disse que irá levar um tempo para que todas essas tarifas entrem em vigor", diz.
"Vou ser paciente. Acredito no nosso presidente."
Mas por que tantos agricultores e outros americanos da zona rural continuam apoiando Trump, mesmo com as pressões econômicas causadas, em parte, pelas tarifas de importação, uma das políticas mais emblemáticas do presidente dos Estados Unidos?
Agricultores à beira de um 'precipício comercial e financeiro'
Se você quiser observar como é a zona rural dos Estados Unidos, a Feira Estadual de Iowa é um bom lugar para começar.
A exposição agrícola dura dez dias e atrai mais de um milhão de visitantes.
Você pode comer algodão-doce ou salsichas fritas no palito, à venda por 7 dólares (cerca de R$ 37).
Há também uma exposição de tratores antigos e uma competição para eleger o maior javali.
Mas, quando a BBC visitou a feira, no mês passado, o tema das conversas era outro: as tarifas.
BBC A apresentadora da BBC Anna Jones na Feira Estadual de Iowa, onde foram ouvidos muitos comentários sobre o impacto das tarifas de importação
"Muitas pessoas dizem que ele está usando as tarifas apenas como moeda de troca, como blefe", afirma Gil Gullickson, que possui uma fazenda no Estado americano de Dakota do Sul e edita uma revista agrícola.
"Mas posso dizer: a história comprova que as tarifas não terminam bem."
Em abril, no chamado "dia da libertação", Trump impôs altas tarifas sobre produtos originários da maior parte dos países, incluindo uma tarifa de importação de 145% sobre produtos chineses.
Em resposta, a China impôs uma tarifa retaliatória de 125% sobre os produtos americanos.
Foi um duro golpe para os produtores agrícolas do meio-oeste americano, às vezes chamado de "cinturão do milho".
Muitos deles vendem sua produção para a China.
No ano passado, as empresas chinesas compraram 12,7 bilhões de dólares (cerca de R$ 67,5 bilhões) em soja dos Estados Unidos, principalmente para alimentar seus animais de criação.
A estação da colheita ocorre em setembro e a Associação Americana da Soja (ASA, na sigla em inglês) alertou que os pedidos de soja da China estão muito abaixo do nível esperado para esta época do ano.
BBC A Feira Estadual de Iowa atrai mais de um milhão de visitantes, ao longo dos seus 10 dias de duração
As tarifas de importação apresentaram enormes flutuações desde sua criação e esta incerteza está criando dificuldades para os produtores agrícolas, segundo o professor de Economia Agrícola Christopher Wolf, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos.
"A China simplesmente é tão grande que, quando faz compras, faz diferença — e, quando não faz, também", afirma ele.
O custo do fertilizante também disparou, em parte, devido às disputas comerciais com o Canadá, que fizeram com quem aumentasse o custo do hidróxido de potássio, um sal que os agricultores importam do Canadá para uso como fertilizante.
O ex-senador democrata Jon Tester, do Estado de Montana, é a terceira geração de uma família de produtores agrícolas.
Ele declarou à imprensa americana no início do mês que, "com todas essas tarifas impostas pelo presidente, ele interrompeu nossa cadeia de abastecimento... aumentou o custo de novos equipamentos... e, devido ao comércio e às tarifas, muitos clientes disseram 'vão para o inferno, Estados Unidos'..."
"As pessoas que são novas na agricultura, os jovens agricultores que não têm dinheiro guardado para tempos como este, enfrentarão problemas e muitos deles irão quebrar", prossegue Tester.
"E, se isso continuar, muitas pessoas como eu, também irão falir."
BBC Os agricultores do meio-oeste americano, conhecido como o "cinturão do milho", vendem uma enorme quantidade de produtos para a China
Os agricultores norte-americanos já sofrem normalmente altos níveis de tensão.
Eles têm três vezes mais propensão de morrer de suicídio do que a média, segundo um estudo da Associação Nacional para a Saúde Rural, uma organização beneficente que analisou um período antes que Donald Trump assumisse a presidência.
Em correspondência enviada à Casa Branca, o presidente da ASA, Caleb Ragland, alertou sobre um ponto fundamental:
"Os produtores de soja dos Estados Unidos estão em um precipício comercial e financeiro."
Trump: 'Nossos agricultores irão se divertir'
Os apoiadores do presidente Trump afirmam que suas tarifas irão ajudar os produtores agrícolas dos Estados Unidos no longo prazo, forçando países como a China a virem à mesa de negociações para firmar novos acordos agrícolas com os Estados Unidos.
Eles também indicam outras formas em que o governo atual auxiliou os agricultores.
No verão do hemisfério norte, como parte da lei de gastos e impostos de Trump, seu governo ampliou os subsídios federais para os agricultores em US$ 60 bilhões (cerca de R$ 319 bilhões) e impulsionou o financiamento do seguro federal da produção agrícola.
No seu discurso anual no Congresso, em março, Trump alertou os produtores agrícolas sobre um "pequeno período de ajuste" após as tarifas.
"Nossos agricultores irão se divertir", declarou Trump. "Para os nossos agricultores, divirtam-se muito, amo vocês."
Getty Images Os apoiadores de Donald Trump afirmam que suas tarifas de importação irão ajudar os agricultores americanos no longo prazo
O chefe do Departamento de Agricultura do Estado do Texas, Sid Miller, faz parte do grupo que vem elogiando Trump pelo seu "apoio vital".
"Finalmente, temos um governo que prioriza os agricultores e pecuaristas", escreveu ele em declaração, no início deste ano.
"Eles defendem os agricultores, desafiam a China... e garantem que os produtores americanos recebam tratamento justo."
É possível que a estratégia de tarifas de importação do presidente eventualmente funcione, segundo o professor de Economia Agrícola Michael Langemeier, da Universidade Purdue, no Estado americano de Indiana.
Mas ele também receia que as incertezas inflijam danos de longo prazo.
"O nosso parceiro comercial não sabe ao certo qual será a nossa posição no ano que vem, pois parece que estamos mudando as traves do gol", explica ele.
"Isso é um problema."
'As tarifas irão nos tornar grandes novamente'
Um velho provérbio da política americana diz que as pessoas "votam com o bolso" e se voltam contra os políticos se parecer que eles estão prejudicando suas finanças.
Mas, apesar das pressões financeiras, os americanos da zona rural com quem conversamos apoiam firmemente o presidente Donald Trump.
Especialistas afirmam não terem visto nenhuma evidência de mudanças significativas no apoio entre os eleitores rurais desde o ano passado.
Uma pesquisa realizada no mês passado pelo Pew Research Center concluiu que 53% dos americanos da zona rural apoiam o trabalho sendo desenvolvido por Trump, muito mais do que os 38% do país como um todo.
Mas uma pesquisa do instituto ActiVote, no início deste mês, encontrou um pequeno declínio da aprovação de Trump entre os eleitores rurais, de 59% em agosto para 54%, em setembro.
Os analistas alertam para não dar importância excessiva a estas mudanças, pois o número de eleitores rurais que participam destas pesquisas é muito pequeno.
"Os dados que observei indicam que Trump ainda detém forte apoio nas comunidades rurais", afirma o professor de Ciências Políticas Michael Shepherd, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.
Ele é especializado na política da zona rural.
BBC John Wilson, ao lado de Judah, o Grande Carneiro, na Feira Estadual de Iowa. Muitas das conversas durante o evento giraram em torno de Trump e suas tarifas
Para alguns produtores que participaram da Feira Estadual de Iowa, a explicação é simples.
Eles acreditam no presidente americano, quando ele diz que as tarifas irão ajudá-los no longo prazo.
"Acho que as tarifas, eventualmente, irão nos tornar grandes novamente", afirma o criador de gado leiteiro e produtor de queijo de Iowa, John Maxwell.
"Estávamos dando muito à China e [antes] pagávamos tarifas quando vendíamos para eles. Vamos ser justos.
O que é bom para eles, é bom para nós, também."
Alguns podem também manter a esperança de que o presidente irá socorrer os fazendeiros.
Durante seu primeiro mandato (2017-2021), Trump concedeu aos agricultores um subsídio de US$ 28 bilhões (cerca de R$ 149 bilhões) em meio a uma disputa tarifária com a China.
Atribuição seletiva de culpa?
O professor de Política Nicholas Jacobs, do Colby College, no Estado americano do Maine, é o autor do livro The Rural Voter ("O eleitor rural", em tradução livre). Para ele, existe uma razão mais profunda em jogo.
"É fácil para alguém de fora perguntar 'por que diabos vocês ainda apoiam esse cara?'", afirma ele.
"Mas você precisa entender que, em toda a zona rural americana, a mudança em favor dos republicanos é muito anterior a Donald Trump."
Desde os anos 1980, segundo Jacobs, os americanos da zona rural começaram a se sentir alienados e deixados para trás, enquanto as cidades se beneficiavam da globalização e das mudanças tecnológicas.
Formou-se então o que ele chama de "identidade rural", baseada em queixas comuns e na oposição aos liberais urbanos.
Os republicanos pareciam ser seus líderes naturais, enquanto os democratas, segundo Jacobs, se tornaram "o partido da elite, tecnocratas, pessoas com formação, os urbanos".