Morre Mãe Carmem, ialorixá do Terreiro do Gantois, aos 98 anos
Líder religiosa foi descrita como uma "guardiã da ancestralidade e herdeira de uma linhagem que pavimentou a história do Candomblé na Bahia e no Brasil"
- Categoria: Geral
- Publicação: 26/12/2025 13:45
A ialorixá Mãe Carmem morreu aos 98 anos na madrugada desta sexta-feira (26/12). A informação foi confirmada pelo Ilé Ìyá Omi À Ìyámase, conhecido popularmente como Terreiro do Gantois e localizado em Salvador (BA).
A líder religiosa foi descrita como uma "mulher de axé, guardiã da ancestralidade e herdeira de uma linhagem que pavimentou a história do Candomblé na Bahia e no Brasil".
A causa da morte não foi divulgada.
"Filha direta de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Carmen nasceu para o sagrado.
Desde muito cedo, foi formada nos fundamentos, nos ritos e nos saberes que sustenta uma nação.
Sua infância foi preparação espiritual; sua vida, missão.
Nada em seu caminho foi acaso, foi legado, destino, desígnio dos Orixás", disse o Ilé Ìyá Omi À Ìyámase.
Carmen estava há 23 anos à frente do Gantois.
"Seu retorno ao Orun acontece em uma sexta-feira, dia consagrado a Oxalá, Orixá da criação e da serenidade, um símbolo que traduz uma trajetória marcada pela retidão, cuidado e fé.
Em Oxalá, o descanso, na ancestralidade, a permanência", destacou o Terreiro.
Autoridades lamentam morte e lembram legado
A ministra da Cultura Margareth Menezes afirmou que teve o privilégio de conhecer Mãe Carmem como autoridade espiritual, mas também como uma "grande mulher de fé que cultivou amor, acolhimento e a força de quem lidera pelo exemplo".
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania manifestou pesar pela morte da líder religiosa e afirmou que a partida dela representa uma grande perda para o "povo de santo, para a Bahia e para o país".
"Sua vida permanece como legado de sabedoria, firmeza espiritual e compromisso com a ancestralidade", citou a pasta.
O Ministério também ressaltou que o Terreiro do Gantois integra o conjunto de lugares reconhecidos no âmbito do Projeto de Sinalização de Lugares de Memória da Coordenação-Geral de Memória e Verdade da Escravidão, pelo valor histórico, simbólico e cultural na trajetória da população negra no Brasil.
A Secretaria Estadual de Cultura da Bahia também lamentou a morte da ialorixá.
"Mãe Carmen será lembrada sempre pelo seu legado de fé, espiritualidade e luta pelas religiões de matriz africana.
É uma liderança religiosa que fortalece a nossa cultura e nossas lutas por igualdade.
Tenho certeza de que seu legado será assegurado por filhas e filhos de santo, que seguirão na manutenção da tradição no Terreiro do Gantois", comentou o secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro.
Leia a nota do Terreiro do Gantois na íntegra:
É com profundo pesar, respeito e reverência que a Associação de São Jorge Ebé Oxóssi comunica a passagem da Ìyáloria do Ìlé Ìyá Omi Àe Ìyámaé, Mãe Carmen de Òàgyían.
Ìyáloria, mulher de axé, guardiã da ancestralidade e herdeira de uma linhagem que pavimentou a história do Candomblé na Bahia e no Brasil.
Filha direta de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Carmen nasceu para o sagrado.
Desde muito cedo, foi formada nos fundamentos, nos ritos e nos saberes que sustenta uma nação.
Sua infância foi preparação espiritual; sua vida, missão.
Nada em seu caminho foi acaso, foi legado, destino, desígnio dos Orixás.
Há 23 anos à frente do Gantois, Mãe Carmen assumiu com amor, coragem e responsabilidade a condução de uma Casa que é fé, memória e identidade.
Ser Ìyáloria em sua presença, sempre significou cuidar, proteger, orientar e sustentar o axé com dignidade, firmeza e sabedoria, zelando pela comunidade e pela continuidade de uma tradição ancestral.
Mãe Carmen foi farol, colo, caminho e fortaleza.
Sua palavra ensinava, seu silêncio acolhia, e seu fazer cotidiano era atravessado pela entrega, pelo respeito aos Orixás e pelo compromisso com a vida coletiva.
Em seu corpo e em sua condução, a herança de Mãe Menininha permaneceu viva, pulsante e afirmada dia após dia.
Como Ìyáloria desempenhou com dedicação e firmeza o cuidado cotidiano do axé, contando com o apoio de suas duas filhas, que estiveram ao seu lado na condução da roça, compartilhando responsabilidades, saberes e a sustentação da Casa.
Mãe Carmen deixa ainda três netos e quatro bisnetos, expressão viva da continuidade, da memória e do futuro que segue sendo tecido a partir de sua presença e de seu legado.
Seu retorno ao Orun acontece em uma sexta-feira, dia consagrado a Oxalá, Orixá da criação e da serenidade, um símbolo que traduz uma trajetória marcada pela retidão, cuidado e fé.
Em Oxalá, o descanso, na ancestralidade, a permanência.
Hoje, nos despedimos de sua presença física, mas afirmamos com convicção: seu axé permanece. Seus ensinamentos seguem vivos, sua missão continua inscrita na história e sua memória permanece como fonte de força, amor e sabedoria para as gerações que virão.
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